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35º Enafit – Música + Trabalho uniu história e arte em projeto inovador

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Uma atividade inovadora foi inserida na programação do 35º Encontro Nacional dos auditores-Fiscais do Trabalho – Enafit, nesta quarta-feira, 13 de setembro. O projeto Música + Trabalho foi apresentado pelo Auditor-Fiscal do Trabalho Lucas Reis e pelo músico e compositor Zé Renato, integrante do grupo Boca Livre e com reconhecida carreira solo.

Vera Jatobá, diretora do Sinait, explicou aos enafitianos que a ideia surgiu a partir do Projeto “Música +”, que Zé Renato apresenta em parceria com outros cantores, explorando diversos temas por meio da música, como meio ambiente e culinária. A Comissão Organizadora do 35º Enafit vislumbrou que o tema trabalho poderia ser encaixado neste formato lúdico e inovador na programação do evento.

Segundo Lucas Reis, a intenção do painel é o de “apresentar a visão do trabalho e do trabalhador na trajetória da música brasileira”. Para isso, dividiram essa apresentação em três períodos, tendo a Era Vargas como um marco histórico no Direito do Trabalho, pois ali foram criados a CLT, o Ministério do Trabalho e a Justiça do Trabalho, por exemplo. O convite foi feito e o músico aceitou o desafio de mostrar, através da música, a representação do trabalho e do trabalhador.

As canções escolhidas representaram o período pré Vargas, a Era Vargas propriamente dita e a ditadura militar. “Tentamos analisar a criação poética, a criação musical, como o trabalhador e o trabalho eram vistos em cada período e foram retratados na música. É o trabalho humano através da arte. Pensar o trabalho humano em todas as suas dimensões enriquece a prática do Auditor-Fiscal do Trabalho, o exercício da atividade”.

A música “Pedro Pedreiro”, de Chico Buarque de Holanda, embalou a acolhida no palco. Zé Renato abriu a apresentação com Construção, também de Chico, um clássico imediatamente lembrado quando se pensa na relação música/trabalho.

Durante o painel, Lucas fez a contextualização histórica do significado de cada período e o músico Zé Renato interpretou as canções escolhidas dentro de um vasto repertório pré-selecionado.

No período pré Vargas, no início do Século XX, pouco tempo depois da abolição da escravidão no país, as letras falavam em terceira pessoa, do trabalho do outro, mais do ponto de vista da malandragem e do não trabalho. O repertório para este período foi representado por duas canções de Noel Rosa – Três Apitos e Filosofia.

Na era Vargas, foi percebida uma mudança de perspectiva na maneira como o trabalho e o trabalhador são retratados. Passa-se a uma exaltação e valorização do trabalho e a narrativa muda para primeira pessoa. Uma das músicas que ilustraram esse período foi “Bonde São Januário”, de Wilson Batista, cuja letra somente foi liberada após a troca da palavra “otário”, da letra original, por “operário” no verso: “O bonde São Januário, leva mais um operário, sou eu que vou trabalhar”. Outra canção com o mesmo sentido foi “Zé Marmita”, marchinha de carnaval de 1953, sem autor identificado.

Na transição para o terceiro período começa a surgir a relação da vida do trabalhador dentro e fora do trabalho. As letras apresentam o sofrimento e angústia do trabalhador, o problema da distribuição de renda e a falta de dinheiro para comprar o que precisa. A primeira canção em que essa realidade aparece é “Tenha pena de mim”, de autoria de Ciro de Souza e Babaú, de 1914.

Ainda na linha de que "uma vida cheia de sentido fora do trabalho supõe uma vida cheia de sentido dentro do trabalho", disse Lucas Reis, citando Ricardo Antunes na obra “O Caracol e sua Concha”, seguiu-se a  “Canção do Sal”, de Milton Nascimento e “Caxangá”, de Milton e Fernando Brant, interpretadas por Zé Renato. Estas canções falam da complementariedade entre a vida e o trabalho e reflete como o trabalho é um elemento central na vida do indivíduo e da sociedade.

Lucas pontuou que “a Declaração da Filadélfia, da Organização Internacional do Trabalho, de 1944, diz que o trabalho não é mercadoria. Mas com a reforma trabalhista, o trabalho e o trabalhador passam a ser uma mercadoria, desvalorizada. Se a Auditoria-Fiscal do Trabalho também é desvalorizada, está aberta a porta para a exploração do trabalhador”.

Outras canções com este mesmo sentido foram “Com açúcar, com afeto”, “Valsinha” e “Cotidiano”, todas composições de Chico Buarque, encerrando a sequência de canções escolhidas.

Auditores-Fiscais do Trabalho se manifestaram relatando a emoção trazida pelas canções e sua contextualização histórica, num formato que deve permanecer na estrutura do Encontro.

Zé Renato, que mantém o projeto “Música +”, disse que o trabalho ainda não tinha sido incluído em seu repertório e foi para ele uma surpresa a abordagem proposta pelos Auditores-Fiscais, em especial a pesquisa feita por Lucas Reis.

Para encerrar o show, Zé Renato cantou “Toada”, uma canção de sua autoria e que se inseria ali porque fazer música é o seu trabalho. E ainda “Suíte do pescador”, de Dorival Caymmi, que tem o trabalho como tema sempre presente em sua obra. A plateia cantou junto, com emoção e entusiasmo, terminando “à capela” sob a regência de Zé Renato.